O poetinha

Ontem foi o centenário de nascimento do grande compositor, poeta, dramaturgo e diplomata Vinicius de Moraes. E apaixonado que sou pelas obras deste grande autor, gostaria de compartilhar com vocês um poema que em tempo de nostalgias e de distancia de minha casa, me deixa mais sensibilizado com a nossa imensa riqueza literária e por esta  maravilhosa terra chamada Brasil! Obrigado poetinha!

PÁTRIA MINHA

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”


Abaixo segue um vídeo com um trecho do poema declamado por alguns dos nossos grandes da poesia e da música.

 

 

Este poema foi feito por Vinícius em 1949 quando ele estava em Los Angeles, e a impressão foi feita por João Cabral de Melo Neto também neste ano. João Cabral estava em Barcelona quando recebeu a versão ainda escrita de Vinícius. Logo depois, o imprimiu na sua prensa particular e enviou novamente para Vinícius, causando-lhe surpresa.

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Chegada e Adaptações

Depois de 10 horas atravessando o atlântico, a chegada no continente europeu foi interessante, com muitas sensações diferentes. Começando pela grandeza e beleza do aeroporto de Madrid – Barajas. Depois com o primeiro contato realmente do idioma espanhol – pessoas conversando nas ruas, metrôs e praças.

Nos primeiros dias me surpreendi com o fato de escurecer somente as 22:00. Nunca tinha visto isto antes, pois em Brasília no máximo escurece as 19:00, quando temos o horário de verão. Aqui este fato deve-se também ao horário de verão, que começa no mês de Junio e vai até meados de Setembro.

Desta forma, a lógica aqui é outra: enquanto estamos no inverno (meio do ano) eles estão no verão. É nesta época que as pessoas tiram férias, vão para as praias, viajam pela Europa e conhecem outros países. Me surpreendi pelo fato de eles não abrir mão das férias (vacaciones) .Quando cheguei a cidade estava “vazia”. Andava nos ônibus e metrôs e estavam sempre vazios. Encontrava muitas lojas com cartazes “Cerrado por vacaciones, volveremos en Septiembre”, ou seja, muitos comerciantes fecham realmente seu estabelecimento e se dão o luxo de ficar até 3 meses com o seu negócio fechado.

cerrado_por_vacaciones

 Outra coisa curiosa e que achei interessante é a chamada Siesta, que é um horário entre 14:00 e 17:00 em que alguns estabelecimentos fecham suas lojas para descansar, depois de uma manhã “larga” e também para se prepararem para o turno da tarde. A volta ao trabalho geralmente  é as 17:00 e as 22:00 fecham novamente. Esse descanso pode ser para as pessoas dormirem, resolver algum assunto, fazer um passeio, etc. Isso eu considero uma coisa boa, que proporciona qualidade de vida, pois no meio de um dia em que muitas vezes é estressante ou difícil, você tem um momento para se cuidar e fazer coisas do seu interesse (relaxar, aproveitar a família, etc).

Siesta

Esse costume é mais forte no verão, quando as temperaturas são mais altas e causa aquela preguiça leve. E também pelo fato do dia ser maior no verão, com a quantidade de horas maior em relação ao inverno. Nas cidades do interior este costume é mais comum.

Desse modo, muitos turistas quando vão passear neste horário ou tentar resolver alguma coisa não conseguem. Os espanhóis não abrem mão disso! Lembro que na primeira semana quando estávamos procurando apartamento para alugar ligamos em um número e uma mulher atendeu, e depois de um tempo ela falou algo assim: “Ahora estoy en siesta, por favor no me molestem”, e desligou o telefone na nossa cara.

Essas coisas são curiosas e acho que o intercambista ou turista deve respeitar e sempre estar aberto para essas coisas, pois isso faz parte da cultura e dos costumes de cada país ou região.

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Impressões

No primeiro mês e alguns dias em Madri já tenho algumas reflexões que gostaria de compartilhar com vocês. Na verdade eu gostaria ser daquelas pessoas que andam com um caderninho de baixo do braço, anotando tudo que vê, assim como fazia o grande Guimarães Rosa com suas anotações do nosso sertão mineiro. Logicamente não teria a capacidade de criação e a imensa beleza da escrita deste magnífico escritor, mas se eu  conseguisse anotar somente alguns escritos importantes já estaria feliz.

Mas, voltando ao assunto principal, muitas coisas tenho observado nesta cidade, tanto coisas boas quanto coisas ruins. Assim como todas as coisas que existem no mundo sempre há o lado positivo das coisas e o lado  negativo. A primeira coisa que gostaria de trazer é que muitas vezes a gente imagina que nossa cidade ou o bairro onde vivemos é ruim, ou ainda mais, as vezes falamos que nossa região não é “desenvolvida” e até que nosso país é inferior a muitos outros países como os EUA e a Europa. Com certeza alguém já escutou algo assim, seja na escola, na parada do ônibus, na internet, etc.

Entretanto, penso que temos que ser cautelosos e primeiro pensar em qual parâmetro que estamos analisando. Pois existem muitas coisas que são relativas. Por exemplo, se formos analisar o transporte público de Madri (capital da Espanha) com o de Brasília (capital do Brasil), com toda a certeza  temos que repensar e avançar em muitas coisas. Por outro lado, temos também que levar em consideração a idade das duas cidades – Madri é do século IX e Brasília tem pouco mais de 50 anos. Ou seja, há a necessidade de analisar o contexto em que as duas cidades se encontram. E este é um exemplo pontual, isto é, duas cidades distintas.

Vendo por outro lado e trazendo para um aspecto mais amplo e generalista, no que diz respeito a recepção e alegria das pessoas, creio que o povo brasileiro tem muito mais o que mostrar (pelo menos para os espanhóis, salvo exceções). Mas aqui caio na mesma questão do relativo, pois talvez isso pode ser questões culturais do Europeu, que por nós brasileiros são considerados mais “frios”.

As vezes tenho a impressão de que nós temos sentimento de inferioridade, em relação aos países mais “desenvolvidos”. Para terminar, acho que o importante é termos consciência de que cada país e cada cidade tem suas realidades, seus defeitos e suas virtudes. Temos que reconhecer nossas deficiências e sermos realistas com nós mesmo, assim como valorizar a nossa cultura, a nossa região e falar com orgulho e cabeça erguida as nossas qualidades. Eu não trocaria a minha cidade (Brasília) por Madri, mesmo reconhecendo que aqui existem coisas belíssimas. Além disso, existem outras questões importantes e que são inerentes a qualquer parâmetro físico, como a identidade que cada um tem entre o seu povo, sua região e a sua terra amada.

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Porque escrevo e objetivo do blog

Sempre tive vontade de escrever um blog. Inicialmente queria escrever sobre o que estudo (temas relacionados a Engenharia Florestal, Meio Ambiente, comunidades rurais, Cerrado etc) e sobre o que penso sobre diversas coisas da vida (caminhadas, experiências, viagens, encontros, vida estudantil, etc).  Nunca escrevi porque confesso não ser bom na escrita, seja no sentido gramatical ou ortográfico. Entretanto, a vontade foi maior que as dificuldades e resolvi escrever assim mesmo.

Com a aprovação no intercambio, pensei que todos os momentos vividos aqui na Europa não poderia ficar só comigo. São muitos acontecimentos que merecem ser relatados. Teria que compartilhar de alguma forma com meus amigos e com minha família. Desta forma, criei este blog com o objetivo de ser mais um veículo de comunicação (sem ser Facebook, Skype, e-mail) entre meus grandes e queridos amigos do Brasil, minha família e para todas as pessoas que se interessar sobre os diversos assuntos que tratarei aqui.

Não irei me focar em momentos particulares (dificuldades pessoais, etc), mas sim em como é a experiência de um intercâmbio, a cidade  de Madrid e as outras que irei conhecer ao longo do ano, as pessoas, a universidade, o transporte, as praças, a arte e os eventos culturais. É de bom gosto dizer que aqui irei relatar segundo o meu ponto de vista, isto é, a minha opinião de estudante intercambista do Brasil. Não cabe julgar o que é melhor ou que é pior, mas sim colocar os pontos positivos e negativos das duas realidades – Brasil – Europa.

Espero que este seja um ambiente dinâmico, onde vocês também possam sugerir posts, corrigir erros,  fazer críticas e outras considerações. Conto com a participação de todos que irão ler este blog, seja com comentários, curtidas ou compartilhamentos. Sintam-se a vontade para divulgar nas mais diversas redes sociais – Facebook, Skype, Twitter, entre outras.

Quero ressaltar que o nome do blog “Relatos de um caminhante” remete à todos os caminhantes e ao Projeto Re(vi)vendo Êxodos, pelo qual aprendi a “caminhar”  e a “ser um caminhante” da vida, a aprender com os outros, a ouvir e a superar os desafios que a vida nos exige. Este projeto que me proporcionou tantos acontecimentos importantes tem um significado enorme na minha vida e sempre será minha referência, meu porto seguro e meu equilíbrio.

Espero que gostem ! Sejam bem vindos!!!

Divirta-se! ¡Disfrútalo!  Enjoy it!

 

2013-10-02 22.05.34

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