Huega! Greve na Educação Espanhola

Ainda hoje lembro no dia em que falei para meu amigo Rodrigo S. que estava quase conseguindo um intercâmbio para a Espanha, e ele, já com sua análise sociológica (ou antropológica) me disse: cara, o bom é que você vai pegar a Espanha num clima de efervescência, de instabilidade econômica, com manifestações da sociedade e tudo mais.

Bom, desde quando cheguei em Madri, infelizmente por falta de tempo e pela correria do dia a dia não tenho acompanhado de perto como andam as questões políticas e econômicas do país. Entretanto, volta e meia assisto no noticiário e leio em alguns jornais que falam do desemprego e da economia que continua “mal das pernas”.

Nas ruas, as vezes escuto e fico sabendo que teve uma manifestação aqui e outra ali, a favor disso, contra aquilo, e por ai vai. Geralmente são nas capitais que ocorrem as principais manifestações e reivindicações da população. Aqui em Madri, recentemente acompanhei um pouco mais de perto a manifestação sobre a educação pública.

Para contextualizar minimamente, pois como disse, não tenho acompanhado falarei um pouco sobre o sistema de educação aqui da Espanha para a gente entender o porquê desta manifestação.

A educação pública espanhola é obrigatória para todos os cidadãos, mas ela não é totalmente pública. Existe uma taxa de inscrição na escola – por exemplo do Jardim infantil até o ensino médio (aqui chamado de bachillerato). Além disso, os livros didáticos o governo não oferece e são as famílias que tem que compra-los. Estes e outros materiais escolares não costumam ser baratos; há famílias que pagam mais de 1000 € por ano.

A questão da obrigatoriedade aqui é levada a sério. No entanto, o ensino só é obrigatório até os 16 anos (quando chega no bachillerato), depois disso, a pessoa pode fazer a opção que quiser – abandonar, trabalhar. Mas se o jovem tem menos que 16 anos e não está na escola, a polícia ou as autoridades vão até a casa da família saber porque o menino não está estudando, e no caso dos pais estarem impedindo, podem até receber multas e responder processos. Se um aluno deixa de ir 1 ou 2 semanas para a aula a escola liga perguntando o que aconteceu, se está passando alguma coisa com o aluno e se não obtiverem respostas, eles também vão até a casa da família pedir esclarecimentos.

Em relação a qualidade da educação em breve farei outro post só sobre este tema.

Dito isto, voltando o assunto principal do post, com a crise, o governo nos últimos anos vem cada vez mais fazendo ajustes e cortes em vários setores, e como sempre um dos escolhidos é a educação. Os cortes vão desde a educação básica até as universidades. No âmbito de universidade, ano passado diversos professores foram demitidos, as pesquisas estão cada vez mais difíceis porque não há verbas e estão ao ponto até de fecharem alguns cursos ou faculdades (nas cidades pequenas onde supostamente há menos estudantes e professores).

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Aquelas taxas que eu falei anteriormente, estão cada vez mais caras. Por exemplo, a universidade pública que atualmente estudo aqui em Madrid – UPM, cobra uma taxa por disciplina ou matéria. Os preços são variados e depende da quantidade de créditos ou hora-aula das matérias, se tem laboratório ou não, etc. Um estudante de engenharia florestal que escolhe 6 matérias no ano, pode pagar até 2000 € por ano, e se ele reprovar a matricula para a disciplina reprovada é mais cara. Ou seja, a universidade não é totalmente pública! O que é pior, é que não existem sistemas de inclusão ou cotas, seja socioeconômica, racial, etc.

Depois de saber disso, fiquei pensando como uma pessoa pobre faz para estudar em uma universidade aqui?! Parece que só tem um caminho: se o garoto é “bom”, ou seja, aluno “destaque” no bachillerato ele consegue uma beca (bolsa de estudos) na universidade.

Por essas e outras, que há 1 ou 2 semanas atrás houve uma das maiores manifestações com o tema sobre educação aqui na Espanha, mais especificamente sobre a proposta do deputado José Ignácio Wert, na qual propõe uma reforma na educação (lei LOMCE) que inclui além dos cortes, diminuição de bolsas para estudo e pesquisa.Imagem

Em várias regiões da Espanha houveram protestos, com muita gente na rua lutando pelos seus direitos e querendo melhorias na educação. Foi bonito de ver! Haviam pais nas ruas, professores junto com estudantes universitários ou secundaristas e várias frentes da sociedade civil – ong’s, movimentos sociais, associações, etc.

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 Abaixo segue um video da manifestação aqui em Madri:

Fontes e mais informações:

http://sociedad.elpais.com/sociedad/2013/05/08/actualidad/1368031468_320468.html

http://www.elmundo.es/espana/2013/10/24/52684479684341f9558b456f.html

Ley LOMCE:

https://www.mecd.gob.es/servicios-al-ciudadano-mecd/dms/mecd/servicios-al-ciudadano-mecd/participacion-publica/lomce/20130517-aprobacion-proyecto-de-ley.pdf

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4 respostas para Huega! Greve na Educação Espanhola

  1. Antonio Arnaldo mendes Santana disse:

    Parabéns João Carlos, pela qualidade dos textos postados. Muito importante conhecermos, de forma clara e imparcial, a realidade de outros países para que possamos analisar de forma isenta o que temos e o que poderíamos ter aqui.

    • joaocarlosmp disse:

      Obrigado Arnaldo!! É bom saber que está sendo útil e as pessoas estão lendo. A proposta é justamente essa, contar um pouquinho do que vejo aqui, de forma descontraída e informal. Grande abraço!

  2. Rafael Nascimento disse:

    Parabéns meu velho!!Muito bom o texto e muito bom saber das manifestações pela educação, um tema que tanto acreditamos. Continue nos alimentando de informações e novidades de suas aventuras na Europa. Saudades irmão. Abração. Rafa

    • joaocarlosmp disse:

      Obrigado Rafa!!! Realmente é bom para a gente ver as diferenças entre a educação daí e daqui, seja por pontos positivos ou negativos. Enfim, vejo que temos que valorizar principalmente nossa universidade!

      Um grande abraço! Saudades!!

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